18 fevereiro 2015

a ordenha









Lonjuras, tonturas, poemas. Não tenho um álbum de fotografias. Isto me incomoda. Não ter um álbum de fotografias é como não ter passado. Pela vida. Tento arrumar os cabelos. Dois fios brancos saltam como pequenas ovelhas brancas em um rebanho negro. Apenas lembro: sentamos, um ao lado do outro, e fumamos. Em silêncio. Nada dissemos. Olhávamos o céu e um par de crianças que sorriam. Ele tocou minha mão e balbuciou algo que fiz questão de não entender para poder estar, hoje, relembrando a cena e sofrendo por não ter guardado a palavra. Não tenho um álbum de fotografias. Mas tenho isto. Estas imagens gratuitas de vida e liberdade. Tudo na cabeça. Na mesma cabeça que ostenta um corte de cabelo estranho e dois fios de cabelos brancos que são ovelhas brancas em um rebanho negro. Engraçado mencionar ovelhas. Me faz pensar em religião. Deus, ateus e santos. Gosto de imagens, mas nunca me aproximo delas. Tenho medo. Elas me olham como se me julgassem. Há pouco ele me abraçou e disse "te amo e você sabe que é muito". Penso: quanto é muito? Até onde vai? Tenho problemas com quantidades e distâncias. Por isso, nunca dirijo. Velocidade, quilômetros, passantes... tudo me desacerta. Tenho medo de me expandir e ultrapassar limites. Então, não bebo. Nada alcoólico. Prefiro o lúcido caprichar de minhas atitudes medianas. Evito o profundo. Eu luto contra o mergulho. Talvez, por este motivo, eu não tenha um álbum de fotografias. Mantenho tudo guardado em minhas ondas lufadas de orgulho. Passearemos mais tarde. Fumar não tem mais graça. Sexo é quadrado. E, no carro, cantarei para animá-lo. É o que faço. Tão ágil e áspera quanto a língua de um gato.












2 comentários:

Germano Viana Xavier disse...

Parabéns pelos escritos do blog e pelos livros, Branca. Você, como disse sempre, é singular no meio deste bosque sombrio de coisas sem valor.

Luis Eme disse...

tens um passado tecido com palavras e olhares memorizados nessa cabecinha, com dois fios brancos...

para quê, fotografias, Letícia?