26 fevereiro 2015

savana de esconderijos











Telefonava-me todos os dias. Hoje eu admito que não vislumbro razão. Contudo, na época de seus telefonemas, contentava-me em demasia aquela voz risonha de canto triste que me dizia coisas. Ligava-me em seus intervalos de cafezinhos e cigarros. E como mentia... Eu sabia quando ele estava mentindo. Pois, muito embora entre nós não houvesse combinação, nossas invenções eram recíprocas. Ele mentia ou inventava que seu trabalho, de preencher papéis e aturar patrão no percalço, era, entre muitos labores, o mais aliviado. E eu ouvia. Com o tempo, aprendi a decifrar sons. Isqueiro que acendia, dedos que deslizavam pela barba e até choro contido. Ele lutava tanto para esconder o que, até esta data, não faço ideia. Contava-me de sua mãe e de uma irmã com quem morava. Falava das duas de maneira tão intensa que, em minhas invenções, passei a conhecê-las. E dizia dos filhos coisas tão belas. De tais palavras, eu avistava verdade. Mas, de todo o resto, eu sabia que era rugido de bicho preso em savana de esconderijos. Ele ria tentador. E eu, sonsa, também ria. Dizíamos que sentíamos amor um pelo outro. Um amor puro, sem cobranças ou retaliações. No entanto, brigávamos por ciúme. Vez ou outra. Eu gostava quando ele me telefonava para narrar a cidade. De forma muito peculiar ele o fazia. Falava de homens de terno, de mendigos, de mulheres que passavam. Contava o número de pessoas com as quais topava entre as esquinas. Gargalhava ao relatar algo que lhe havia acontecido: uma festa, um porre de bebida, uma verdade esquecida. Era bom ouvir. Aquecia-me a alma que, atordoada, nas solitárias horas da manhã, servia-se de qualquer palavra como companhia. Isto durou cerca de um ano. Chegou o tempo em que ele se deixou mudo, eu me tornei fugidia e o telefone nunca mais tocou. Porém, ainda me lembro das mentiras. E sorrio ao pensar que talvez este tenha sido um dos mais verdadeiros casos de amor que tive na vida. E eu o vivi, até onde podia.








5 comentários:

Tânia Tiburzio disse...

Gostei! E fez tanto sentido pra mim. Obrigada por compartilhar o texto e suavizar minha manhã.

Gláucia Constantino disse...

Tão suave, Coolmadre. Doce. Amei. Beijos!

Franck disse...

Parabéns!!! Texto lindo! Sei o que é isso do telefone nunca mais tocar...

Domingos Sávio Barroso disse...

extraordinário, extraordinário...

Germano Viana Xavier disse...

Texto lindo.