03 fevereiro 2015

serenos










Para Cleidinaldo, o músico
E para Lenice, a doce Margot,
que estão mais vivos do que nunca.

(vida sempre)







Dois anos atrás, se não me engano, deixei claro que não sabia escrever homenagens póstumas. Fico sem jeito. Somem palavras. Me sinto mal educada ao verbalizar condolências. Sou estranha mesmo. E, de tão assim, acabo me tornando comum. Sou tão pessoa que nunca achei que as dores vizinhas fossem me pegar de jeito. Mas pegaram. É, Mané, penso eu, — Sua vida é como a vida de todo mundo. Em uma semana, pasme você, a morte, a tal obrigatoriedade que nasce com a gente, fez questão de pousar no telhado duas vezes em um período muito curto. Embora eu não saiba contar tempo, acredito que tenha sido curto. Primeiro, partiu o músico, marido de minha irmã Giovana. Ela me ligou, às 7 da noite, em pleno sábado, dia em que pessoas curtem baladas e fazem festa, e, chorando, me disse que meu cunhado havia sofrido um acidente. Não me aguentei. Chorei sem fim. Mas como assim? Pensei que acidentes só acontecessem com os outros! Mas não. Aconteceu com a gente. Após receber a notícia, nos encontramos todos na casa de minha irmã. A família inteira. Fizemos vigília. Minhas irmãs, sobrinhos e eu passamos a noite tentando entender, tentando não chorar muito e tentando sorrir lembrando das boas memórias que o músico havia deixado. E os dias passaram. Entre orações, lágrimas e muita esperança em tempos melhores, havia ainda outra dor. Lenice, minha sogra (que era mais amiga que qualquer outra coisa), por estar muito doente, lutando pela vida na UTI de um hospital desta cidade, também partiu. Às 7 da noite, em pleno sábado, dia em que pessoas curtem baladas e fazem festa, ela fechou os olhos para este mundo e os abriu para outro. Descansou. De novo, outra vigília, mais orações e muitas lágrimas. Duas famílias se tornaram uma só e se uniram em outro domingo para enfrentar outro funeral. Sim, outro. Foram dois em uma semana. Mórbido? Eu cheguei a pensar que fosse. Cheguei a pensar mil coisas. Pedi a Deus uma trégua, um tempo de pausa, para que a gente pudesse e possa viver mais feliz. Sim, eu acredito em Deus. Acredito em muitas coisas. Algumas são muito tolas. Outras, nem tanto. Passei dias e horas tentando entender que mistério havia em tudo para que sofrêssemos tanto. Até este momento, ainda me pergunto. Aliás, não mais. Estou serena. Porque minha família está serena. Porque a morte é passagem. Porque faz parte. Se iremos nos acostumar? Não sei. Se um "urubu pousou na minha sorte"? Claro que não. Morte não é praga de inimigo, nem castigo. Agora sei que é o início. Se posso explicar? Claro que não. É mistério. É fé. É ter forças para aguentar. Com a morte, lhe digo, aprendi uma lição muito bela. Mas prefiro guardar o segredo. Não sei dizer. Apenas sinto. E quando não atendo telefonemas de amigos, aqueles que sabem pelo que está passando minha família, é porque o silêncio me abriga e me traz sabedoria. Não muita. Mas a necessária para que eu entenda que, a despeito de tudo, há vida. E ela está aqui, aí, acolá. É tempo de trégua, eu sinto. Tempo de aprender a amar. Clichê? Sou. E estou bem. Faz calor, já passa da meia-noite e o vigia anuncia que está guardando nossas casas. Tomarei uma xícara de chá e dormirei. E amanhã pretendo trabalhar.








2 comentários:

Luis Eme disse...

não sei se alguém convive bem com a morte, Letícia.

talvez algumas mulheres com alma de carpideiras, capazes de chorar (com ais e tudo) mesmo por quem nunca viram na vida. embora aquilo seja um número. não é bem morte...

e perdemos sempre, é algo invisível, mas forte, até nos pode mudar o sorriso...

Germano Viana Xavier disse...

A vida é aquela nuvem.E paz aos que foram.