03 dezembro 2015

interminável assédio







Às vezes, nos preocupamos tanto em dar satisfações que nos esquecemos de nos satisfazer. Vou escrever curto. Como um surto. Roubo do acaso. Coisa que se quer dizer, mas que nunca se diz. Deixei de acreditar nisto. Nesta coisa de inferno astral. Agora só acredito em números exatos e palavras escritas, que não são fugidias, visto suas dimensões no papel. País em crise e dizem: há golpe. De direita ou esquerda? E quando daremos a outra face? Pergunto ao homem que pressiona botões no elevador. São estes os diálogos mais verdadeiros. Estes que são ausentes de interesse ou vaidade. Toda coisa dita sem ensaio é a coisa real e explícita. O homem desce. O elevador fica vazio. Somente eu e o espelho nos observamos. Lembro-me do amor que sentia. Amor por tudo. Hoje, não sinto. O sol secou o sentido de meus afetos. Chego, enfim, ao andar que é destino, assino papéis e que bobagem me importar com o que sinto. E ainda há esta mania de relatar minha vida para estranhos. Eu começo, sentada em poltrona vermelha, e muito besta acreditando que irei mentir. Primeiro digo que respeito a faixa de pedestres. E acrescento: respeito pessoas também. Não todas, ouso admitir. Respeito pessoas que mal conheço. E, quanto as que conheço, juro amor e nunca apareço. Um lenço para fingir que se está chorando. Tão ruim quanto remédio obrigatório, em gotas, me faço suportar. Disto eu me acerto. Entende? Destes problemas que escondo. Me acerto ─ em cheio. Meu delito maior, me acredite, é dizer que tenho tempo, quando, de fato, nem relógios eu aguento. O despertador é o único que está sempre correto. Ele me sacode da cama. Tão enérgico. É interminável o assédio. Eu acordo como quem morre. Nua e deplorável. Egoísta e esgotada. Na contramão da obediência. Exploro e analiso segredos alheios, e me darei ao favor de usá-los em meu próximo ato. Jogarei tudo fora em conversas que nada rendem. Como estas conversas que travamos em elevadores ou coletivos, para passar o tempo que passa. Conversas que nada me fazem sentir. Será esta a inquietude que assalta todos? Se meus amigos sofrem? Amigos se refazem. Amigos são efêmeros. Amigos? À merda. Sou bastante gentil e pago tudo em dia. Mesmo quando meu humor é ácido bactericida, sou alegrinha flor cheia de vida. E minha vingança nunca é tardia. O único passo em falso é a preguiça. De resto, sou mera ilustração de cartilha.









Um comentário:

Luis Eme disse...

Tantas satisfações e ainda mais coisas por satisfazer, porque o Sol secou quase tudo...

Quem bom não ter sido tudo, Letícia.

Mas o mundo está a dar mais uma virada e quase que nos obriga a andar em pino.

abraço