14 janeiro 2016

escrava delas







É estranho perceber que me tornei, parte Frida Kahlo, parte Dona Pombinha, personagem de um conto lido à tarde. Frida porque ainda me revolto. Dona Pombinha porque sou cheia de pressentimentos. Minha família já nem aguenta. Sonhei com isto. Sonhei com aquilo. Jogue no bicho. Não saia quando estiver chovendo. Irônico como nos transformamos em algo que, quase sempre, abominamos. Eu era tão moderna. Agora, veja só: sou boneca antiga e, no espelho, uma ruga alardeia a idade. Será tarde? Estou cada mais abismada com o país que é a minha pátria. Observo tudo com os olhos de um turista abobalhado. Que praia linda! Olhe só, há tartaruguinhas ali! E mais, veja o rapaz carregar a bolsa daquela senhora! Que absurdo! Dos impostos, não gosto. Das notícias, nada tenho a declarar. E do preço da gasolina, baby, nem queira saber. Tudo aqui é demais. Ou pouco. E você ainda vem me falar de amor! Tenha dó. Amor é caviar em terras de água escassa. Ano passado, quando me vi em silêncio completo, pude, de uma vez por todas, desinflar balões. Meu ego, murcho de tanto perder, tornou-se nanico. Anão que levanta pesos no circo. E quando me afastei das coisas que acreditava não mais precisar, de súbito, tornei-me escrava delas. O nome soa bonito. Escravadelas. Tudo junto. Nasci homem e mulher, assumem cientistas. Porém, minha parcela fêmea, de mim, se destacou. No entanto, nem sempre foi assim. Quando menina, eu, de cabelo joãozinho, me sentia menino. Eu brincava com eles. De bola, de corre-corre, de beijo. Eu gostava mais dos meninos. Com o passar das coisas, ganhei manhas de mulher e passei a idolatrar, e de forma pornográfica, os meninos que se tornaram homens. Muito embora nenhum Lampião tenha surgido em meu sertão, e Don Juan não tenha se esparramado em meu gramado, tive boas amostras da espécie. E delas tirei muito proveito. Hoje, não mais. Perdi o jeito. Ou o jeito terá me perdido. No mais, sou ave e, dos predadores, me esquivo. E com afeto, distribuo sorriso.









4 comentários:

Erica de Paula disse...

Sempre forte. Sempre bonito :)

Luis Eme disse...

Um sorriso para ti também, Letícia. :)

Bruno Oliveira disse...

Ah,a idade... Inevitável transmutação. ;)

Cyelle disse...

Menina, que revolta linda! Sou eu, somos nós.