16 março 2016

rebento







Surtei. Dei banho no cachorro. Ele ficou tão feliz que colocou as patas em meu joelho. Sinal de agradecimento. Pensei em tirar uma selfie. Mas não deu tempo.

(vida afora)





Estou sempre nascendo. E o que me toca a pele é o tempo, ora com carinho, ora com seus golpes violentos. Não vou falar de mim porque tenho feito isso desde que nasci. E perceba que não nasci no dia de meu nascimento acertado em certidão. Nasci depois. E diversas vezes. Meu primeiro nascimento ocorreu no dia em que quase fui atropelada por um caminhão. Minha mãe atravessou a rua e eu a segui. O caminhou freou, minha mãe desmaiou e meu pai, do outro lado da rua, me olhava. Foi então que comecei a perceber o mundo. Vi todas as cores com tamanha nitidez que me senti maravilhada. Havia céu de verdade e gente caminhando na avenida. O mundo existia. Depois de tal descoberta, veio o dia do cinema. Meus pais saíram e me deixaram em casa com meus irmãos mais velhos que, assim como eu, eram crianças. Fiquei na cama, sentada, cercada de balas e chocolates que me foram dados para que eu não chorasse. No entanto, não adiantou. Chorei muito enquanto meus pais, que mal se divertiam, assistiam a um filme qualquer no deserto urbano que era São Paulo dos anos 70. Foi nascimento e descoberta, pois percebi que eu não era a única. Eu tinha irmãos que cuidavam de mim. E, talvez, naquele momento, eu tenha tomado consciência de que também precisava cuidar deles. Muito cedo aprendi a olhar as outras pessoas como se fosse espelho. Depois disso, muitos eventos fizeram acordar em mim o nascimento. Primeiro dia na escola, o choro ao ver minha mãe me deixar com estranhos, primeiro castigo, primeira verdade jogada na cara. Enquanto eu vivi em São Paulo, o céu era quase cinza e não havia estrelas. Quando cheguei ao Nordeste, retirante inversa, vi estrelas e ouvi cigarras. Tão alto cantavam. Nasci outra vez ao ouvir as cigarras no quintal da casa de minha avó. E continuei meu processo de nascer com a chegada da menarca. Tanta vergonha senti. Ninguém havia me explicado nada. Nem livros eu li. Mas já era mulher. Aos onze anos. Nunca entendi. Depois fui retirada novamente do útero quando perdi aquilo que chamam de virgindade. Palavra bonita usada em casta voz para minimizar a dor e a invasão. Romantizaram tudo. Nasci doida dessa vez. Doida de tão apaixonada. E, por graça dos dias, a paixão foi embora, deixando em mim uma mulher que ainda se sentia tão menina que fingia ser atriz de tevê. Estudei, vadiei, fiz tudo quanto foi maluquice para me ver nascida. Parida de vez. Mas, a cada tentativa minha, eu me tornava sempre recém-chegada. A cada pancada das horas, eu nascia de novo. O primeiro emprego, o primeiro cheque, a primeira subversão. O primeiro pecado cometido em sã consciência é o mais belo de todos. Tudo me fazia surgir no mundo. É um processo contínuo. Ter filhos, ir ao médico, o surgir das rugas, a solidão que, ao invés de incomodar, passa a ser presente. Tudo é novo a todo instante. Vê? Percebe o quanto é inexato perguntar data de aniversário? Percebe o quanto não se conhece alguém por inteiro? Pois a gente nasce a cada hora. Nesse momento, enquanto escrevo, sou apenas um rebento. Um fruto que vibra de amor, de cólera, de vaidade. E amadureço sem tomar conhecimento.







4 comentários:

Luis Eme disse...

Que grande biografia!

Quanta lembrança, quanto esquecimento, Letícia. :)

Erica de Paula disse...

"Estou sempre nascendo."
Belo texto!

Anônimo disse...

(aprendi a olhar as outras pessoas como se fosse espelho.) melhor professora que já tive sem dúvidas sempre alegre, contando histórias, falando suas bandas e cantores favoritos nunca vou esquecer dessa pessoa tão legal... amei ler as histórias!
#_gillyara

- disse...

tô apaixonada pelos teus textos!! Obrigada :)