13 março 2016

terço de março







Amor


Acordei e senti os pés gelados. Para minha proteção, calcei grossas meias de cor nua e, debruçada à janela do quarto, deixei-me livre ao momento. Chovia. Tão logo a água se misturava à terra, flores vivas surgiam, despertas, quase de olhos abertos e mãos úmidas. Ao contemplar as coisas que o tempo arquiteta sob os olhos de Deus, eu acariciava o rosto. Era toda minha a inédita melancolia do dia. Voltei para cama e, encolhida como concha que o mar esconde, reclamei do frio, embora estivesse feliz por tê-lo comigo. Ouvi a porta bater. O homem entrou, guardou na estante dois livros, descansou na poltrona artefatos de seu trabalho e, ao perceber o quanto eu tremia, sem pedir permissão, cobriu-me inteira. Seu corpo era o sol daquela manhã fria.




Infantaria


Telefonam-me pedindo conselhos. Quem ousaria? Não aconselho sequer inimigos ao salto em abismo. "Deixa-me sozinha" é o que digo. Não sou capaz de tal carpintaria. Que o ser se faça ou desfaça de acordo com sua autonomia.




Meu caro


Mas será que sou a única que sente vergonha ao ver, em manifestação contra corrupção, gente tomando cerveja, comprando bonecos infláveis e faixas caracterizadas com as cores do Brasil? Será que sou a única que se sente excluída sem qualquer voz que fale por mim? Eu sou do povo. Eu sou das estatísticas. Eu faço minha parte. Pago tudo em dia. Levo desaforo pra casa e dele faço motivo para escrever. Recolho amores porque não posso vivê-los. Crio fantasias que não saem de meu guarda-roupa. E, por falar nisso, fiz faxina dia desses e encontrei carta incriminadora. Escrita por mim e assinada com gosto, a carta fala de meu desejo por certo homem. Que vergonha me tornei que não sirvo de exemplo para a associação de senhoras que caminham com Cristo. What a shame é o que berra meu inglês de beira de esquina. A vida está desmantelada desde a raiz e você ainda me diz que tudo irá melhorar. Todo eufemismo tem como objetivo ironizar a verdade, meu caro. E, acaso queira que eu erga um cartaz, tire o carnaval do caminho que eu passarei com meu silêncio estupefato. A ausência de aplauso é um dos motivos para que o ator se retire do palco.








Um comentário:

Luis Eme disse...

Não és a única, de certeza, Querida.

Mas as multidões gostam de brincar quase à "cabra cega", caminhar sem ver gritar sem escutar...

Que tamanha indefinição deves sentir,
ao ver um país enorme a ruir...