15 julho 2017

belas anaydes








Limpo as lentes dos óculos, mantenho o foco e me aguento. 
Para estar no mundo preciso, antes, estar comigo por inteiro.





Penso em Clarice Lispector. Ela sozinha com seus livros e seus personagens. Quantos obstáculos deve ter enfrentado Clarice para que ela conseguisse escrever? Não é a questão de gênero que tento abordar. É a questão do ser. Há tantas coisas pelo caminho, tantas distrações na vida, que escrever é sempre uma batalha. Penso também em Anayde Beiriz, que se perdeu no tempo por causa de um amor doido. Um amigo baiano foi o primeiro a me falar de Anayde. Lembro que ele mencionou umas cartas e até me comparou a ela. Tenho nada de Anayde. Ou talvez tenha. Sou mulher, professora, amo e tento me encaixar. Se bem que não posso afirmar que Anayde Beiriz tenha feito isso. Digo apenas o que li aqui e ali. Comprei um livro que traz a correspondência amorosa da autora, considerada poeta. Li quase todas as cartas. Parei em algum ponto que me incomodou. Eu sempre paro quando algo me incomoda. Voltando a Anayde Beiriz, me incomodou ler da autora somente seu amor por alguns homens. Me incomodou mesmo. E não pelo fator feminista. Algo mais forte me fez estancar a leitura. Em todas as cartas vi uma mulher que amava, mas que gritava, em seu lirismo romântico, para que alguém a entendesse. Ou talvez não gritasse. Me senti triste ao ler uma autora castrada por seu amor que culminou em crime político e perseguição. Procuro por Anayde no Google. Vasculho tudo. E só o que encontro, pedindo perdão por minha limitação em pesquisa, é a alcunha que lhe deram: a pantera de olhos dormentes. Não é possível que uma mulher seja somente isso. Aquela que ofende por seu comportamento, aquela que escreve o que sente, aquela que chora seus amores. Não aceito esta Anayde. Assim como não aceito que Clarice seja apenas a solitária que escrevia. E não aceito que me digam que Virginia Woolf era maluca e se matou por isso. Não aceito a ficção que se torna realidade. Eram todas mulheres. E escreveram. Fizeram algo mais que seus rótulos. Fizeram mais que seus livros e conflitos. Elas viveram. E sempre que uma mulher se assume escritora, mesmo que o mundo caia sobre sua cabeça, algo brilhante acontece. Todas as panteras de olhos dormentes se libertam.










Um comentário:

Luis Eme disse...

O google é um "puto", sabe muito pouco de história, Letícia. :)