27 julho 2017

princípio solitário








Muitos querem escrever. E querem se tornar escritores. Mas quantos estão dispostos a pagar o preço? Pois ser escritor não é glória alguma. E também não é ruína. É o intermédio. Eu carrego sempre uma agenda comigo porque não consigo deixar que o mundo passe por mim sem que me sinta tocada por ele. Cada gesto, cada palavra, cada acontecimento, por mais comum que seja, tudo me toca. E de tal forma que não tenho forças para me afastar do que vejo. Então, eu escrevo. Outro dia estive em um hospital acompanhando uma criança que sentiu-se mal na creche na qual estou trabalhando.

Paro.

Na sentença que acabei de escrever, há partículas de outras sentenças que não passam despercebidas pelos olhos de quem se propõe a ser escritor. Uso o termo escritor como aquele que habita o mundo e dele faz questionamentos. Há pequenos temas em tudo que vivemos. Quando digo que estive em um hospital, a mente vagueia por outros cubículos que me fazem parar e querem escrever a respeito deles. Mas não posso. O foco é outro. Escritor preciso estar no meio da tormenta e capturar exatamente o assunto ao qual se dispôs a escrever. Do que eu estava falando mesmo? Ah, sobre não ter forças de me afastar dos acontecimentos. Não tenho. Assumo que sou fraca e cada coisa que vejo me parece um livro que preciso escrever. Ou um conto. Ou texto. Escritor tem essa mania de ser um tipo de deus. Mania de salvar todos, de tocar o céu e mover montanhas. Mania de ser maior. E como toda entidade que acredita ser grande perante o mundo, todo escritor é muito solitário. Sim. Muito solitário. Contudo, não posso afirmar isso com certeza. Posso apenas falar por mim. Eu sou solitária. Porque é preciso ser. É meu ofício de escrever que me transforma em uma criatura distante, que observa e pondera sobre todos os instantes que ocorrem. Vivo assim desde minha infância quando, ao ver minha mãe preparar almoço e cantar músicas que ouvia em um rádio que ficava sobre a geladeira vermelha, e ao longe sorriam meus irmãos e suas brincadeiras, eu não conseguia sair daquele instante de observar o gigante vermelho que se quase tocava o teto da cozinha. Eu observava a geladeira como se fosse algo feito de fenômenos. Mas será que isso é coisa de escritor ou apenas característica de uma menina tímida que vivia dentro de sua voz calada enquanto o mundo girava em sua geografia? Não sei dizer. Digo somente o que tenho capacidade. E tudo dentro de minhas limitações. Escritor tem limitações. Eu, por exemplo, não sou poeta. Nem seria. Não sei escrever poesia. Mas leio poesia e aplaudo versos com minhas mãos de tocar homens que de meu amor não sabem a metade do que desejo. Estará disposto a tamanha solidão e egoísmo todo aquele que se propõe a ser escritor? Estará disposto a viver a vida como se cada momento fosse recorte de outra vida que precisa ser narrada? E com relação a ser escritor em nossos dias, e ter que vender livros e mostrar o rosto em revistas e sorrir feito um tolo em sarau e sentir dor de cabeça após dois goles de bebida e muita palavra maldita. Estará disposto? Na verdade, não sei descrever o que é se propor a ser escritor. Não é dom. Não é coisa de elite. Não é bobagem. É trabalho constante. E mesmo não sendo paga por isso, eu insisto. Como centenas de outras pessoas que escreveram e estão mortas e caladas em suas lápides e memórias, eu insisto. Escrever é um princípio.








6 comentários:

Germano Viana Xavier disse...

Nada mais adianta nesse mundo.
Quase nada mais ainda nesse mundo.
Escrever adianta muita coisa.

Sigamos, bucaneira!

Luis Eme disse...

(olhei-me ao espelho a espaços, Letícia... mas eu tenho a mania que sei e posso escrever tudo, até poesia...)

Priscila Six disse...

Deve ser por isso que dispenso o que escrevo - às vezes ainda com o pensamento na cabeça, às vezes com o pensamento já no papel... Tenho dificuldade em me acostumar com a solidão. No entanto, tenho aprendido muito com ela... Quem sabe eu aprenda a viver com minha solidão e com meus pensamentos sem dispensá-los, um dia?

Letícia Palmeira disse...

É uma solidão momentânea, Pri. Quando o escritor está produzindo, é comum querer estar só. Virginia Woolf relata bem isso em Um Teto Todo Seu.

Beijo pra você.
E escreva.

Letícia Palmeira disse...

Também tenho essa mania, Luís.

Letícia Palmeira disse...

Sigamos!