22 maio 2018

folclórica








Ainda me fascinam as histórias que percorriam salas e corredores do Educandário Santo Antônio. Como o prédio pertencia ao aglomerado de construções da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, tudo na escola era antiguidade. Desde o piso, de ladrilho hidráulico, às grandes janelas e portas arredondadas, a atmosfera era por demais barroca para os dias de avenidas e carros. Dentro da escola, o vento trazia ingenuidade na voz das crianças com as quais eu estudava. Recém-chegada de são Paulo, eu pouco entendia do folclore e sotaque dos meninos e meninas que se alegravam quando a merenda era servida: pão francês e mingau para cada aluno. Era um dos lanches mais deliciosos. Durante as aulas de matemática, ainda lembro da professora Lourdes fazendo contas de adição e subtrair com o uso de régua e dominós para facilitar a compreensão de todos. Não havia bullying. Eu, por exemplo, por deixar com que os cabelos caíssem em cachos sobre meus olhos, era chamada de Medusa. Alcunha que não me feria, a não ser quando dita com certa petulância por algumas meninas. Talvez o mundo fosse mais pueril. E as histórias, que hoje sei que se tratam de lendas urbanas, eram fascinantes. Havia uma que fazia tremer de medo qualquer um que perambulasse sozinho pelos banheiros, pois era dito que uma mulher havia morrido ali e seu fantasma assombrava a escola. A mulher do algodão era o mistério maior daqueles tempos. Dizia-se que sempre que alguém visse um tufo de algodão a flutuar pelo banheiro era sinal de que ela estava por lá, esperando uma vítima para assustar ou fazer vingança. Nunca soube ao certo o enredo verdadeiro da narrativa. E nem me importava saber. Tudo o que eu queria era sentir frio na barriga e medo ao correr com as meninas assustadas e risonhas quando um de nossos colegas inventava de dizer que tinha visto A Mulher do Algodão. Havia também a Comadre Fulozinha, que assobiava e enfeitiçava qualquer um que ousasse lhe perturbar. Eram as histórias de minha infância. Histórias lúdicas que permanecem vivas em minha memória que busca, de vez em quando, refúgio na vida antiga que não feria tanto quanto essa que se assume diante de nós. Se fecho os olhos, e permaneço atenta, ainda posso ver os meninos a correr empinando pipas e jogando futebol com suas bolas de meia. Com todo cuidado e respeito ao passado, é capaz que eu ainda me veja a rabiscar redações para as aulas de português em um mundo passado rico em lições e histórias.

O mais curioso de tudo é que, por mais que eu sentisse medo, mais eu o enfrentava. Talvez seja esse o segredo.









Um comentário:

Luis Eme disse...

Sim, esse é um bom segredo, Letícia.

E ajuda-nos a sorrir com essas memóriasd e a aproveitar as lendas no nosso dia.:)