03 março 2010

humanístico




Flores de toda idade é a infância e não há, em tão breve mundo, alguém que não se lembre ou se apegue e não queira novamente o vento de uma tarde que o tempo esconde, pois a memória traz inquieta aos olhos que enxergam o passado de forma a fazer saudade de nós. Minha mãe a lavar roupas, tão atarefada franzindo o cenho e quase se esquecendo de ser bonita enquanto olhava distraída a brancura das vestes de suas crias. Varais atravessavam sua imagem e era de um olhar perdido que ela se portava e carros passavam em todas as avenidas e nós brincávamos no quintal de casa e as roupas cheiravam a sabão em pedra e minha mãe parecia máquina de afazeres enquanto manisfetava notícias nosso antigo rádio de pilha. E eu, desbravador de meu jardim, brincava com formigas. Procurava nomes, as humanizava, as colocava no caminho das hortaliças e fazia das tais pequenas criaturas, inseparáveis amigas e, quando uma delas se desfazia em minhas mãos, de tão sensível corpo minhas meninas, eu chorava desconsolado e minha mãe deixava seu sono aberto de esquecer o dia e corria a me acudir. Aninhava seu menino em seu colo, em seu terno amor sem outro que a faça esquecida e eu me sentia salvo de minhas dores infantis. Por que chora? E eu que tinha meu enorme mundo em casa, protegido nos braços maternos, hoje sou filho da pressa, das vertigens, do calor e do asfalto que me enterra e vivo de minha tragédia. Alimento-me de trabalho, tenho filhos, mulher que de mim se distancia e, em passos falsos, piso em formigas que antes eram amigas e me faço de tolo sorrindo mesmo certo de que o mundo não saberá de minhas horas vazias de comer passado e entornar a vida.




Image by Piotr Olech

9 comentários:

Germano Xavier disse...

Quando se une as imagens formigais e os pisamentos de pé ou de mente, só me recordo de Drummond, num texto que não sei em qu livro dele está, dizendo que "aprendeu a arte de matar com a formigas". Talvez o lovelace impreciso mais preciso de nossas existências. Texto infantadulto.

Mai disse...

Este texto me quebrou ao meio e nada do que escreva vai servir. Me senti uma formiga. Nick Droke é muito bom - adoro - mas esta música com o texto foi inclemente.

Beto Canales disse...

hummm

Mai disse...

Nicolas Drake - minha adolescência

Mariah disse...

cheiro do feijão fresco da vó!

Sonhadora disse...

O pontapé do mundo era a varanda do fundo, com o rádio de pilhas da mãe tocando as mesmas músicas, nos mesmos horários, toda tarde.

Que vento bom na minha memória!

Mas, "hoje sou filho da pressa, das vertigens, do calor e do asfalto que me enterra e vivo de minha tragédia." (Letícia P.)


Delicioso texto, Letícia.
=}

Zélia disse...

É do CCHLA? :O

Posso me colocar como um ser que foi feito Saudade. Era o que pensava no meu caminhar de volta para casa após o trabalho. Entre outros, meu nome é Saudade. Se me chamares, eu atenderei. Saudade que quem foi, saudade de quem ou daquilo que não veio, saudade de quem ou do que me foi tirado. E fico pensando por que que a vida não depende só de mim...

Dona ervilha disse...

Cheguei aqui por causa do selo indicado pela Tania Marques e gostei muito de tudo o que eu li. Teu texto é muito envolvente.

Cris disse...

Que belo texto e sensíveis palavras... Tuas linhas evocam imagens de nossa infância, transportando o leitor no tempo. Parabéns.