31 março 2010

o perdão






Raskolnikoff, personagem do famoso "Crime e Castigo" de Dostoiévski, apresenta, em um trecho da história, uma frase que trago sempre comigo, a qual transformei em uma das minhas filosofias de vida: "Sou um homem porque erro" — diz o jovem pusilânime em um dos muitos fluxos de consciência presentes na obra. Esta é a melhor definição que se pode ter de um homem: é o erro que nos faz humanos.

Por conta dessa natureza falível, deveríamos ter o perdão também como uma característica inerente à nossa condição mortal. Se erramos muito, deveríamos também perdoar em demasia.

Perdi a conta de quantas vezes errei e de quantas vezes tive que me perdoar por cometer o mesmo erro. Ao reconhecer meus próprios erros e aceitá-los como parte de mim, fui capaz de perceber que todos aqueles a quem já julguei incorretos não mereciam minha condenação, mas minha compaixão e, acima de tudo, meu perdão.

Muitas vezes temos o ímpeto de olhar para o nosso semelhante e massacrá-lo diante dos seus defeitos e dos desvios da conduta que achamos ideal. Quando olhamos para nós mesmos e temos a dimensão de que à nossa frente e à nossa volta há alguém que tem suas razões, a perspectiva pode ser transformada.

Dizem que é muito fácil julgar e condenar os outros. Acredito que não. Na verdade, sempre que condenamos o outro, agredimos a nós mesmos. No momento de recriminar, esquecemos que ninguém melhor do que cada um sabe o peso de viver sua própria vida e de conviver com suas falhas.

Antes de julgar, coloquemo-nos no lugar do próximo e, como disse uma de minhas sábias professoras, "aprendamos a compreender o compreender do outro". É difícil, mas os anos podem nos ajudar a sermos homens porque erramos.




Image by MagdaMontemor

5 comentários:

Elis disse...

Acredito que não são os erros que podem nos transformar, nos fazer crescer, amadurecer, etc, mas sim percebê-los como erro e encará-los como tal! Acredite, faz toda a diferença!
Belo texto!
Abraço
Elis.

Zélia disse...

Errar é uma das condições mais elementares do homem. Você fala que o perdão também deveria ser uma dessas nossas condições elementares. Você está certo. Foi esse um dos ensinamentos que Jesus Cristo nos deixou. A questão é que somos, como nos diz Pe. Fábio de Melo, "humanos demais para compreender...". Quem sabe fôssemos um Titã como Epimeteu teríamos essa condição aprimorada? O esposo de Pandora cometeu um erro ao ignorar o aviso que lhe dera Prometeu de jamais aceitar um presente de Zeus. Mas Epimeteu ignorou o aviso e espalhou o mal no mundo por meio de Pandora. Acontece que Epimeteu aprendeu com o erro quando o infortúnio o atingiu. O titã filho de Cronos passou a ser visto como "aquele que aprende com o erro". O que ainda nos falta como seres humanos é a capacidade de aprendermos com o erro e, assim, nos tornarmos melhores como seres humanos como queria Jesus.

O meu pedido de perdão a Juljan, Letícia e a qualquer um a quem eu tenha ofendido.

Feliz Páscoa! ;)

Letícia disse...

Vale salientar que eu preciso aprender a perdoar também.

E muito bom teu comment, Zélia. E você nunca me ofendeu. Não que eu me lembre.

Em todo caso, sinta-se perdoada. =)

Biba disse...

Errar e perdoar deviam andar sempre juntos, são verbos complementares. Devo errar bastante, claro, mas eu sempre penso mil vezes na tentativa de evitar o erro. Perdoar já é outra história. Eu perdoo demais, talvez. Sei que perdoo de coração, sempre foi assim. Bom, refletir sobre isso.
Beijo e afeto
Carpe Diem!!

Sylvia Araujo disse...

A citação de Crime e Castigo já deveria ser motivo para ovações à sua pessoa. rs
Assino embaixo. Erramos demais (ainda bem! Porque dizem por aí que é errando que se aprende) e perdoamos de menos. Deslizamos demais, e julgamos demais também. É o umbigo reinante, pai de todos. Ah, e adorei a frase da tua professora. É o que eu chamo de praticar o olhar empático, aquele que nos faz ver e sentir o sentimento do outro como se fosse nosso, e compreender as atitudes alheias, mesmo quando faríamos diferente.

Ótimo post, Letícia.

Beijoca pra você