28 julho 2010

abracadabra





1

Narrarei com as duas mãos, e um pé na frente e outro atrás, a bruta capacidade que possuem meus pensamentos robustos e irracionais. Me fazem acreditar em tudo. Sétima arte, escada de emergência, redução de calorias à base de manobras sexuais banais e decadentes e traduzo, à fina língua, o filosófico francês do jogo da amarelinha. Comedores de meu juízo. Televisivos e virtuais, andam sempre em pares e, quando díspares, nunca os vi desiguais.



2

Estou alegremente ouvindo Fiona Apple às três da manhã. Hora macabra, abracadabra e meus amigos todos dando risada. Bando de gente errada. Não fazem ideia de quem eu sou. Sumo sacerdote fêmea. Dotada de incríveis poderes sobrenaturais que de nada valem. Mas veja minha ambiguidade. Sirvo a tantas bocas e minha mesa está sempre escassa.



2/5

Poema.
Deitado de lado de olhos fechados
Ainda será poema.
Aquele que o escreve, porém, que não sonhe
Sempre o poema muda o rumo de alguém.



Passional 3

Ana C. era passional
Marginal
Mulher viajada.
Tomava chá das cinco
E contava sua vida em meia palavra quebrada.
Eu, coitada
Sou nada.
Se confesso, vou pro inferno
Se viajo, o trem emperra
Por isso me calo quieta
E não dou uma de poeta.
Me deito quieta e peço a Deus
Que me guarde, me ilumine, me desgoverne
E que eu sobreviva intacta
Aos descompassados atritos da pele.



Beijo de amor número 4

Um casal beija
No meio da praça e a criançada corre
O beijo de amor
Engole a cena
Um balé aquático
Língua pra cá
Te amo pra lá
E, do ônibus, contaminado e urbano
O público nem repara
Amor não tem graça
No meio do cotidiano.



Inquietos (fim)

O homem de boca fechada acha que não diz nada. Mas eu ouço a voz do homem calada através do olhar. Ele diz que incerta, embora crente de seu plano, a palavra respira cheia de sentido, boceja de modo tranquilo e se estica a espera do que será dito. Feito gato observando a vida através da janela do décimo quinto andar.





Image by Linnea Strid

7 comentários:

Leandro Neres disse...

Fazia tanto tempo que não lia algo seu :S. E como foi bom ler-te novamente, fez-me tão bem...
Um abraço, Let, um forte abraço e felicidade, sempre!
Leandro

Vidal disse...

Perfeito Letícia.

Letícia! Guarda um livro seu pra mim tah, nao deixa acabar, eu quero ter a honra de comprá-lo com autógrafo e tudo.

Letícia disse...

Pode deixar, Vidal. Te guardo um livro com autógrafo conotativo. Muito bom ver vcs por aqui.

Mai disse...

"A palavra (sempre) respira cheia de sentido". E a questão não se restringe ao sujeito místico ou crente na magia ou poder da palavra.
O engodo e o ilusório parece existir em toda parte e o mais cético e racional já caiu em algum truque. Aliás mágicos sobrevivem assim e de forma espetacular, diferente dos poetas, fazem fortuna com o ilusório.
.
Mas a questão que o teu texto me remete é que há um problema em acreditar cegamente em tudo. Ignorando a existência de truques, perigos e mistérios, ao final há o risco do esquecimento daquilo que se quer para si.
A magia do teu texto está no todo das partes e na mão que toca as letras.
um abraço e um carinho.

Zélia disse...

Não sei se porque é fim, a imagem que me fica é a do gato observando a vida do décimo quinto andar. O olhar de gato é diferente do olhar humano. O felino enxerga mais longe e melhor, inclusive à noite. Agora, imagine um gato olhando o nada/tudo do décimo quinto andar? Ele deve ser Deus em sua terra. Tudo vê. Nós, humanos, na maioria das vezes, não exergamos direito. Nem quando estamos no décimo quinto andar. Que dirá á noite? E se a questão é "fim", ficamos ainda mais perdidos. Que seria de mim sem meu bichano?

Letícia disse...

Mas fim pode não ser fim (encerramento). Vide Lacan. ¬¬

Geraldo de Barros disse...

Letícia, como sempre os seus textos são fantásticos ;)

Gostei de saber um pouco mais de vc hoje, fica bem

Beijo
G