31 janeiro 2014

invasora de domicílios










Enquanto tantos escrevem poemas, a chuva cai sobre minha cabeça. Chuva leve, eu devo dizer. E ainda há esta ausência de coisas que ocupa imenso lugar. Não descobri do que sinto falta. Mas sinto. E sentir é tudo. Ou não. Talvez viver seja tudo. Do fio, a meada. Não procuro razões para que meus dias estalem perfeitos em minha boca. Espero, apenas, que sejam bons e harmoniosos e que me surja alimento para que eu não padeça de fome. Mas não falo da fome que sente a lagartixa que abre sua minúscula mandíbula para engolir insetos. Eu falo de uma fome maior que sequer sei nomear. Só percebo que estou alimentada quando a fome passa. Por isto eu leio. Leio aos bandos. E, quando termino um livro, invado outro. Não me digo devoradora de livros. Eu prefiro dizer que sou invasora de domicílios. Pois, para mim, cada livro é casa. Casa de vidas, de anos, de tempos. Eu leio para viver mais. Dia desses, ao caminhar por entre as estantes de uma livraria, percebi que eu não buscava livros. Eu buscava mais vida para meus dias que são até bacanas. Porém, por nossa vivência ser um tanto limitada, meus dias seguem um enredo de um cotidiano que é cansativo, às vezes. Logo, ler é a minha saída para me expandir. Há quem faça ioga, corra na praia, escale montanhas. E há quem leia livros. Livros que não são enfeites. Livros que não servem somente para que sejam exibidos em fotos. Livros que são escritos para que sejam lidos. Não sou traça, mas digo: meu alimento é livro. E felizes daqueles que comungam desta ceia. Não há mesa mais farta do que uma estante cheia.













4 comentários:

Daniela Delias disse...

Fome que não cessa...

Beijo!

Lucas - Blog: Overture disse...

Tens a mão segura. Fizeste-me pensar num leque de leques de coisas, por apenas esse escrito. Vero. Isso dava conversa longa. Seria bom. Mas não é atrevimento nem convite embutido, é apenas constatação. Fico com o leque principal. Num extremo, o livro, as vidas que há nele, preenchendo de vidas a tua: muito verdadeiro! Noutro extremo desse leque, uma vida que busca preencher-se; e, como alguns fazem com a ioga, a praia... – fazes com o livro... Duas coisas independentes! O livro parece ocupar bem mais do que já é seu grande e justo espaço. Vem coisa por aí. Tomara que seja uma chuva mais forte sobre tua cabeça! Talvez não venhas a escrever poemas. Mas... não queres escrevê-los. Nem te basta lê-los... Mas, se eles ganhassem vida em ti... ahh! Bellissimo. Beijosssss

ediney santana disse...

"Eu prefiro dizer que sou invasora de domicílios. Pois, para mim, cada livro é casa."
é e por aqui o caminho

Germano Xavier disse...

Eu hei de concordar.